A arte é um exercício de liberdade. Melhor: a arte é o lugar da liberdade perfeita. Se não for assim, não é nada. Já a obra deve ser um manifesto. Deve-se encontrar a imagem certa. Não pinto, não esculpo, não represento: procuro formas para o meu grito. Como fazer gritar uma obra como se fosse a própria voz? É por aqui, é por ali, é lá, é cá... Essa é a minha busca. Acredito, como Picasso, que todo ato criativo é um ato de destruição. Ao realizar uma obra, conclui-se um processo doloroso e único de destruição de tudo o que se acredita, para dar lugar a um não sei o quê de novo, diferente do que era. Tal qual um bom ator que não constrói seu personagem, mas decompõe seu corpo civil, ordenado, suicida-se para dar lugar a um outro corpo e depois disso, retorna ao seu corpo, que já não é mais o mesmo. Mas isso me faz sentir uma enorme distância de tudo o que permanece igual, daquilo tudo tomado pelo poder que deve ser sempre conservado. Disse Novarina "Quem teme a morte, não vive e não goza!" Que felicidade intensa é cair no vazio! Gozo! Gozar, defecar, morrer" E pra isso é preciso apenas artista de intensidade, não de intenção.
Mas hoje tudo é tão insignificante quando comparado aos artistas humilhados, numa época em que eram obrigados a se curvar ao poder do príncipe, ao dinheiro da burguesia e à câmara de torturas da Inquisição. Não será a pobreza da nossa arte contemporânea o preço que ela deve pagar pela liberdade que tão conspicuamente desfruta?
Talvez sim! Contam que em tempos idos de repressão a produção nas artes foi efervescente. Mas hoje a liberdade é diferente e nosso inimigo é invisível. A regra do poder não é expressar seus atos, mas disfarçá-los. A arte, sim, tanto pode morrer de um excesso de rigor quanto de uma extrema liberdade. Mas de que liberdade desfrutamos?
O homem cada vez mais se dissolve no mundo, perde sua singularidade e seu poder expressivo. Ele se contenta em propor aos outros de serem eles mesmos e de atingirem o singular estado de arte sem arte.
E essa mesma individualidade perdida é que exacerba o individualismo. Antes o artista acreditava que podia mudar o mundo, o pessimismo acabou com tudo isso. E uma vez que não se pode mudar o mundo, então a gente se ocupa com problemas pessoais. A personificação torna-se mais importante do que as generalidades. Na vida como na arte. Quem muda isso? Paradoxalmente o próprio indivíduo no coletivo.
Assim como os povos se libertam mediante a luta contra a opressão política e econômica, os indivíduos só podem libertar-se mediante a luta contra seus tiranos interiores: a hipocrisia e o medo. Os preconceitos, os interesses criados, a falsa autocrítica, as idéias convencionais e esquemáticas, formam o exército também invisível contra o qual as guerrilhas interiores deverão empreender sua luta pela liberdade criadora. E assim, reestabelecer a singularidade no seu universo de relações com o mundo. E voltar a acreditar que se pode mudar esse mesmo mundo, sem espaço para aventuras demagógicas, nem comércio.
A arte só é verdadeira quando deseja ardentemente transformar o homem e o mundo. Será? Isso será um sonho ou será a sua mais fecunda função? A arte não é êxtase místico, muito menos uma crise de nervos. Metáforas, prazer estético, grandeza, consciência, amplitude, estar no mundo. E estar no mundo é transformá-lo a todo instante. Ah! Mas arte é uma utopia! Talvez... Mas como pensar a realidade, ampliá-la, modificá-la, senão através de utopias? Como pensar em ser cidadão sem essa.... utopia? Se a única coisa que move o ser humano em direção a outro ser humano é o sonho? Como pensar em um conceito de cidade, estado, nação, sem pensar em arte?
O poder, que se masturbe à vontade, nos dê o que é nosso de direito e de resto, que nos deixe em paz. O que é nosso? O espaço de expressão. Falo de expressão genuína, aquela que não se vende nem se "adequa". Não interessa se me consideram artista ou não. Os tempos são outros e quero meu espaço.
Texto: Colagem de diversos autores
Apresentado por Tina Andrighetti e Gutto Basso
Abertura da Panorâmica da Arte de Caxias do Sul 2007 "Vamos Botar as Mãos"
Mas hoje tudo é tão insignificante quando comparado aos artistas humilhados, numa época em que eram obrigados a se curvar ao poder do príncipe, ao dinheiro da burguesia e à câmara de torturas da Inquisição. Não será a pobreza da nossa arte contemporânea o preço que ela deve pagar pela liberdade que tão conspicuamente desfruta?
Talvez sim! Contam que em tempos idos de repressão a produção nas artes foi efervescente. Mas hoje a liberdade é diferente e nosso inimigo é invisível. A regra do poder não é expressar seus atos, mas disfarçá-los. A arte, sim, tanto pode morrer de um excesso de rigor quanto de uma extrema liberdade. Mas de que liberdade desfrutamos?
O homem cada vez mais se dissolve no mundo, perde sua singularidade e seu poder expressivo. Ele se contenta em propor aos outros de serem eles mesmos e de atingirem o singular estado de arte sem arte.
E essa mesma individualidade perdida é que exacerba o individualismo. Antes o artista acreditava que podia mudar o mundo, o pessimismo acabou com tudo isso. E uma vez que não se pode mudar o mundo, então a gente se ocupa com problemas pessoais. A personificação torna-se mais importante do que as generalidades. Na vida como na arte. Quem muda isso? Paradoxalmente o próprio indivíduo no coletivo.
Assim como os povos se libertam mediante a luta contra a opressão política e econômica, os indivíduos só podem libertar-se mediante a luta contra seus tiranos interiores: a hipocrisia e o medo. Os preconceitos, os interesses criados, a falsa autocrítica, as idéias convencionais e esquemáticas, formam o exército também invisível contra o qual as guerrilhas interiores deverão empreender sua luta pela liberdade criadora. E assim, reestabelecer a singularidade no seu universo de relações com o mundo. E voltar a acreditar que se pode mudar esse mesmo mundo, sem espaço para aventuras demagógicas, nem comércio.
A arte só é verdadeira quando deseja ardentemente transformar o homem e o mundo. Será? Isso será um sonho ou será a sua mais fecunda função? A arte não é êxtase místico, muito menos uma crise de nervos. Metáforas, prazer estético, grandeza, consciência, amplitude, estar no mundo. E estar no mundo é transformá-lo a todo instante. Ah! Mas arte é uma utopia! Talvez... Mas como pensar a realidade, ampliá-la, modificá-la, senão através de utopias? Como pensar em ser cidadão sem essa.... utopia? Se a única coisa que move o ser humano em direção a outro ser humano é o sonho? Como pensar em um conceito de cidade, estado, nação, sem pensar em arte?
O poder, que se masturbe à vontade, nos dê o que é nosso de direito e de resto, que nos deixe em paz. O que é nosso? O espaço de expressão. Falo de expressão genuína, aquela que não se vende nem se "adequa". Não interessa se me consideram artista ou não. Os tempos são outros e quero meu espaço.
Texto: Colagem de diversos autores
Apresentado por Tina Andrighetti e Gutto Basso
Abertura da Panorâmica da Arte de Caxias do Sul 2007 "Vamos Botar as Mãos"
Um comentário:
Que a arte seja livre!
Que o autor seja claro!
Pintou? Por que pintou?
Atuou, esculpiu, fotografou, cantou... por quê?
A arte não se explica, ela se pergunta!
Parabéns pela brilhante escolha de trazer Carpinejar pra roda e pra conversa.
Rafael.
Postar um comentário