GESTÃO E PARTICIPAÇÃO - por Liliane Viero Costa


Abaixo, segue texto da Liliane, apresentado na Reunião Aberta na Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, no dia 05.12.2007

A desigualdade de renda deriva da desigualdade de acesso a um vasto e heterogêneo conjunto de ativos que constituem a riqueza: educação, propriedade, crédito, conhecimento, infra-estrutura, etc. Reduzi-la passa, assim, por democratizar o acesso a esses ativo. (Marta Porto)

O capitalismo marcado pela sociedade de consumo procura estabelecer a primazia do mercado sobre tudo e todos.
- transforma a arte em mercadoria
- o ser humano deixa de ser sujeito e passa à condição de objeto

Devemos garantir as identidades culturais e proteger o fazer artístico da mercantilização. Transcender a uma visão meramente instrumental ou física do que seja arte e do que seja cultura.
Devemos adentrar no campo do simbólico e da subjetividade.

A socialização da informação, do conhecimento e dos meios técnicos e materiais disponíveis se constitui num elemento fundamental para a construção de uma política cultural alternativa.
Devemos assegurar o compartilhamento real e efetivo desses instrumentos civilizatórios com toda sociedade.

Conforme Maria Virgínia de Freitas, “ nos anos 60 eram os jovens de classe média, os estudantes que traziam o novo.

Nos anos 80 e 90 a efervescência do diferente começa a nascer em outros espaços sociais.

Em cidades como São Paulo, é nas periferias que começamos a encontrar uma série de grupos de jovens que se organizam para fazer música, dançar, grafitar, fazer teatro, produzir fanzines, organizar ações solidárias, etc.

Esses grupos articulam-se, sobretudo em torno da dimensão cultural para encontrar seus iguais e, por meio de diferentes linguagens expressarem suas questões, suas visões de mundo, suas condições de vida, suas revoltas, seus projetos de sociedade.”

A absorção dessas práticas nas políticas culturais implica na ampliação do acesso das comunidades à infra-estrutura local – teatro, casas de cultura, bibliotecas - a programas públicos e ao aumento do diálogo e troca de experiências com outros acervos e grupos culturais.

Devemos aceitar esse processo como uma semente para a extensão dos direitos culturais das comunidades populares poderem inserir-se como protagonistas do universo sócio-cultural da cidade.

Devemos cuidar os projetos isolados da dinâmica comunitária que recebem apoios e que nem sempre convergem para os interesses do conjunto dos outros moradores.

A questão da formação é decisiva para a compreensão dos mecanismos, gerar a inquietude na busca do saber, entender os fenômenos que regem o mundo que vivemos.

As estratégias de dominação capitalista têm suas bases mais profundas no campo de subjetividade. Exemplo como as mega-fusões operadas entre os grandes conglomerados internacionais da arte, informação e entretenimento. Time, Warner, Americano on Line, CNN.

Este fato cria um monopólio sem precedentes no mundo das artes, da cultura da informação e do controle dos meios técnicos de difusão.
Assistimos à fragmentação das relações sociais e a banalização da vida e das relações.
O ser humano e sua obra são transformados em mercadoria.

O cidadão é deslocado a condição de consumidor jogado como mero espectador passivo do processo.
A lógica hegemônica é a lógica do mercado.

Lógica concentradora, autoritária e excludente que gera uma crise de realidade ao tentar substituir a crítica social e cultural por um simulacro de consciência. Restaura a barbárie e o velho autoritarismo travestidos com modelito “high tech e moderninho”.

Diante dessa condição perversa que transforma a arte e a vida em mercadoria devemos resgatar para a arte, seu conteúdo social e a capacidade de promover uma reflexão profunda sobre a sociedade.

Liberar a imaginação e o potencial criativo da população, afirmar uma cultura que seja a expressão da liberdade, da dignidade e do progresso material e simbólico da humanidade.
Mas cuidar, sobretudo de que forma são feitos o apoio às ações culturais de recorte social. As iniciativas capazes de reverter indicadores históricos de desigualdade ou remédios para a ação social mais ingênua são passíveis de atenção para que a sociedade não trate a dimensão cultural de participação na vida pública dando continuidade ou permitindo surgir novas assimetrias nas políticas culturais.

Citando Marta Porto
“Para os jovens de classe média e alta a cultura é entendida como aventura para o conhecimento e o saber humanizando o espírito e ampliando a capacidade de escolha. Para os jovens moradores das áreas populares, ela é tratada como remédio preventivo à violência urbana e à ação social vinculada a termos como “melhorar a auto-estima”, “se sentir incluído” e outros tantos que presenciamos de forma marcante nos balanços sociais de empresas e nas falas de funcionários da burocracia estatal ou internacional. O caráter político e reivindicatório e a ação transformadora são muitas vezes esvaziados pela retórica oficial e tratados como soluções às mazelas sociais de problemática bem mais ampla.”.

Mas, nos últimos anos, este debate tem ganhado contornos mais críticos e consistentes resgatando o potencial político e transformador das práticas culturais locais questionando a aproximação feita com visões mais assistencialistas.

O ingresso de novos sujeitos participando da vida cultural da cidade começa a ser compreendido a partir da tarefa de universalizar o acesso à cultura a todo o conjunto da população e como via de ampliar a representatividade destes sujeitos e das práticas no campo político e simbólico do universo cultural de cada país, município e região.
Uma das alternativas tem como exigência estabelecer uma concepção de cultura que articule intelectuais, artistas, governo e sociedade.

Recuperar a dimensão cultural das reivindicações trazidas pelos movimentos garantindo o acesso das comunidades ao imaginário e a diversidade cultural de cada cidade é o desafio de uma gestão municipal no campo da cultura em direção à construção de um espaço público participativo.
É preciso articular sujeitos e redes de relações recolocando o desejo, a paixão e a utopia no horizonte de nosso trabalho enquanto pessoas engajadas no fazer da arte e da cultura.
Para além dos aspectos formais.

Descentralizar, socializar e integrar são eixos estratégicos para a afirmação de um projeto cultural a partir de uma compreensão dialética da contemporaneidade.

Conforme artigo 3º da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural a diversidade cultural amplia as possibilidades de escolha que pertencem a todos; é uma das fontes de desenvolvimento compreendido não somente em termos de crescimento econômico como também meio de acesso a uma existência intelectual afetiva, moral e espiritual satisfatória.
Assim pensar a cultura como Política de Estado, como ativo econômico, como comunicação, a memória, a partir de uma gestão democrática bem como as transversalidades das políticas públicas de cultura entendidas como direito básico do cidadão e sua relação com as políticas sociais numa sociedade fraturada: educação, ciência, tecnologia, comunicação, esporte, políticas ambientais, turismo...

Ter claro que quando lidamos com cultura, lidamos com valores simbólicos, materiais e imateriais.
Nesta sociedade que vive profunda crise de valores, este é um campo onde se pode marcar as diferenças com as propostas conservadoras.

A arte é um exercício de liberdade. Melhor: a arte é o lugar da liberdade perfeita. Se não for assim, não é nada. Já a obra deve ser um manifesto. Deve-se encontrar a imagem certa. Não pinto, não esculpo, não represento: procuro formas para o meu grito. Como fazer gritar uma obra como se fosse a própria voz? É por aqui, é por ali, é lá, é cá... Essa é a minha busca. Acredito, como Picasso, que todo ato criativo é um ato de destruição. Ao realizar uma obra, conclui-se um processo doloroso e único de destruição de tudo o que se acredita, para dar lugar a um não sei o quê de novo, diferente do que era. Tal qual um bom ator que não constrói seu personagem, mas decompõe seu corpo civil, ordenado, suicida-se para dar lugar a um outro corpo e depois disso, retorna ao seu corpo, que já não é mais o mesmo. Mas isso me faz sentir uma enorme distância de tudo o que permanece igual, daquilo tudo tomado pelo poder que deve ser sempre conservado. Disse Novarina "Quem teme a morte, não vive e não goza!" Que felicidade intensa é cair no vazio! Gozo! Gozar, defecar, morrer" E pra isso é preciso apenas artista de intensidade, não de intenção.

Mas hoje tudo é tão insignificante quando comparado aos artistas humilhados, numa época em que eram obrigados a se curvar ao poder do príncipe, ao dinheiro da burguesia e à câmara de torturas da Inquisição. Não será a pobreza da nossa arte contemporânea o preço que ela deve pagar pela liberdade que tão conspicuamente desfruta?

Talvez sim! Contam que em tempos idos de repressão a produção nas artes foi efervescente. Mas hoje a liberdade é diferente e nosso inimigo é invisível. A regra do poder não é expressar seus atos, mas disfarçá-los. A arte, sim, tanto pode morrer de um excesso de rigor quanto de uma extrema liberdade. Mas de que liberdade desfrutamos?

O homem cada vez mais se dissolve no mundo, perde sua singularidade e seu poder expressivo. Ele se contenta em propor aos outros de serem eles mesmos e de atingirem o singular estado de arte sem arte.

E essa mesma individualidade perdida é que exacerba o individualismo. Antes o artista acreditava que podia mudar o mundo, o pessimismo acabou com tudo isso. E uma vez que não se pode mudar o mundo, então a gente se ocupa com problemas pessoais. A personificação torna-se mais importante do que as generalidades. Na vida como na arte. Quem muda isso? Paradoxalmente o próprio indivíduo no coletivo.

Assim como os povos se libertam mediante a luta contra a opressão política e econômica, os indivíduos só podem libertar-se mediante a luta contra seus tiranos interiores: a hipocrisia e o medo. Os preconceitos, os interesses criados, a falsa autocrítica, as idéias convencionais e esquemáticas, formam o exército também invisível contra o qual as guerrilhas interiores deverão empreender sua luta pela liberdade criadora. E assim, reestabelecer a singularidade no seu universo de relações com o mundo. E voltar a acreditar que se pode mudar esse mesmo mundo, sem espaço para aventuras demagógicas, nem comércio.

A arte só é verdadeira quando deseja ardentemente transformar o homem e o mundo. Será? Isso será um sonho ou será a sua mais fecunda função? A arte não é êxtase místico, muito menos uma crise de nervos. Metáforas, prazer estético, grandeza, consciência, amplitude, estar no mundo. E estar no mundo é transformá-lo a todo instante. Ah! Mas arte é uma utopia! Talvez... Mas como pensar a realidade, ampliá-la, modificá-la, senão através de utopias? Como pensar em ser cidadão sem essa.... utopia? Se a única coisa que move o ser humano em direção a outro ser humano é o sonho? Como pensar em um conceito de cidade, estado, nação, sem pensar em arte?

O poder, que se masturbe à vontade, nos dê o que é nosso de direito e de resto, que nos deixe em paz. O que é nosso? O espaço de expressão. Falo de expressão genuína, aquela que não se vende nem se "adequa". Não interessa se me consideram artista ou não. Os tempos são outros e quero meu espaço.


Texto: Colagem de diversos autores
Apresentado por Tina Andrighetti e Gutto Basso
Abertura da Panorâmica da Arte de Caxias do Sul 2007 "Vamos Botar as Mãos"